sexta-feira, 20 de julho de 2012

Cinco países unidos para valorizar a vida, em defesa da juventude


Todos os jovens dos países do Cone Sul (Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai) estão convidados a fazer um Gesto Comum em favor da vida da juventude, de 5 a 12 de agosto, constituído pela Organizações das Nações Unidas (ONU) como o Dia internacional da Juventude. A iniciativa é das pastorais juvenis dos cinco países e acontece desde 1997 a cada dois anos. 


O Gesto Comum de 2012 será dividido em três momentos. O primeiro será de 5 a 10 de agosto. A sugestão é que cada grupo jovem de cada expressão que trabalha com o mundo juvenil possa realizar seminários, debates, caminhadas, atos públicos, visitas em lugares que a vida do jovem é violentada (como prisões, abrigos para dependentes químicos e alcoólicos, espaços nas ruas onde os jovens vivem). Também são sugeridas celebrações, rodas de conversa com os jovens ou o que mais o grupo considerar interessante para vivenciar e refletir sobre a defesa da vida da juventude.

O segundo momento acontecerá no sábado, 11 de agosto. A proposta é que todos os grupos das diferentes pastorais, novas comunidades, congregações, movimentos e outras organizações realizem, a partir das 19h uma grande celebração pela vida. O momento pode ser uma celebração eucarística ou outra oração, como o ofício divino. 

A conclusão será com um dia de lazer, em que a juventude possa celebrar a vida também a partir do esporte, da cultura e da arte. Podem ser feitos torneios esportivos, gincanas, apresentações culturais, saraus, etc.

Centenas de grupos de jovens de todo Cone Sul estarão realizando em seus países outras atividades em favor da vida. Essa unidade entre as pastorais juvenis da Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai deve ser estimulada entre os grupos. 

Todos os grupos são convidados a compartilhar a vivência do gesto comum nas redes sociais para mostrar a mobilização e o protagonismo juvenil. 

Violência no Brasil

A necessidade de um gesto concreto em favor da vida da juventude está nas estatísticas de violência nos países do Cone Sul. No Brasil, a taxa de mortalidade média de jovens de 20 a 24 anos é de, aproximadamente, 262 homens e 59 mulheres a cada 100 mil habitantes, de acordo com dados  de 2008 reunidos no Mapa da Violência, amplo estudo (vídeo com resumo e estudo completo) realizado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso Brasil) e pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-americanos (Cebela). A taxa de mortalidade na faixa etária de 18 a 24 anos entre os jovens brancos é de 205 para cada 100 mil pessoas e sobe para 326 jovens negros. Mais de 80% dos presos no Brasil são jovens de 18 a 29 anos.

A realidade fica mais cruel com a falta de políticas que garantam a transformação urgente e necessária dessa realidade. A falta de emprego, de saúde e educação de qualidade, a falta de acesso a essas necessidades básicas contribuem para essa realidade de morte.

História do Gesto Comum
Em junho de 1996, no Encontro Latino-americano de Pastoral Juvenil, decidiu-se que cada região da América Latina faria uma ação conjunta que deveria marcar sua presença junto à juventude através de uma manifestação pública para a sociedade em favor dos jovens. O Gesto teve caráter profético para atender às necessidades concretas dos jovens, principalmente daqueles em situação de risco.

O primeiro gesto foi um jejum, em maio de 1997, para preparar a juventude do continente para o Grande Jubileu do nascimento de Cristo. No Brasil, o Gesto Comum do Cone Sul começou a ser vivido pelas Pastorais da Juventude do Brasil (PJ, PJE, PJMP, PJR) em agosto de 1999.

Em 2002, o cartaz e a oração da Semana da Cidadania foram usados por todos os países do Cone Sul. O tema da semana, organizada pelas Pastorais da Juventude do Brasil foi “Animemos a Esperança, Construamos a Paz - Direito de ser diferente”. Outros símbolos como o fogo e a Whipala (bandeira da resistência latino americana), também foram compartilhados. 

O gesto comum de 2004 também foi feito junto com a Semana da Cidadania, com lema “América Latina: Construindo a Democracia como Bem Comum”. O símbolo em comum foi, novamente, a Whipala. Foram feitas ações em todo o Brasil, como campanhas de documentação (certidão de nascimento, identidade e título de eleitor) para jovens e adolescentes; oficinas, shows, festivais, gincanas e debates para o aprofundamento do tema “Democracia e Bem Comum”; debates sobre a realidade da juventude com profissionais; atos públicos e criação de espaços para os jovens refletirem sobre seu projeto de vida. 

Em 2010, após anos sem realizar o gesto comum, os jovens do Cone Sul reunidos no III Congresso Latino-americano de Jovens, na Venezuela, decidiram retomar a prática com foco na defesa da vida da juventude.

A Coordenação Nacional de Pastoral Juvenil, formada por 10 jovens coordenadores de pastorais, novas comunidades, movimentos e congregações que trabalham com juventude, é, desde 2011, o espaço de articulação e construção do Gesto Comum. A coordenação faz parte da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude da CNBB.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

CNBB define o tema da CF de 2014

Fr Xavier Plassat & Francisco Alan Santos Lima – CPT (Comissão Pastoral da Terra) , Campanha “De Olho aberto para não virar escravo”.


O CONSEP (Conselho Episcopal Pastoral da CNBB) aprovou o tema da Campanha da Fraternidade 2014: “Fraternidade e Tráfico Humano”. A escolha foi no último dia 20 de junho. O tema foi proposto pelos Grupos de Trabalho (GT) de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e de Combate ao Trabalho e Escravo, da CNBB, grupos que envolvem entidades ligadas ao setor pastoral da Mobilidade Humana (como o Serviço Pastoral do Migrante ou a Rede “Um Grito Pela Vida” da Conferência dos Religiosos do Brasil) e às Pastorais Sociais (como a Comissão Pastoral da Terra). No final de 2011, os dois grupos se fundiram num só, traduzindo assim o claro entendimento de que estas realidades são distintas, porém inseparáveis. Desde 2010, seus integrantes sugeriam à CNBB uma próxima Campanha da Fraternidade voltada para essa temática, cada vez mais presente no mundo da globalização. Em apoio à demanda, foram feitas reuniões de mobilização, oficinas de capacitação e coletadas milhares de assinaturas. Com suas rotas nacionais e internacionais, o tráfico está à base da maioria das situações de escravidão moderna.

Estudo divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) no início de junho de 2012, propõe uma estimativa global do número de vítimas do “tráfico humano”, conceito que inclui o tráfico para trabalho forçado e o tráfico para exploração sexual.

Em que pese o desafio de apreender um crime praticado na clandestinidade, a OIT estima esse número em 20,9 milhões, sendo 1,8 Mi somente nos países da América Latina e Caribe: uma prevalência de 3,1 por mil, acima da média global. Do total mundial, a exploração laboral representa 78% (sendo 14,2 Mi pela economia privada e 2,2 Mi pelo Estado) e a exploração sexual, 22% (4,5 Mi); 74% das vítimas são adultos e 26%, crianças; 55% são mulheres, 45% homens; em 44% dos casos, essa exploração se dá no decorrer de uma migração, seja dentro do próprio país (15%) seja para fora do país (29%), percentagens que, no caso da exploração sexual, são bem diferenciados: 19% no país e 74% fora. Bem conhecido no campo brasileiro sob a figura do “gato”, o chamado aliciamento é um mecanismo encontrado sob todas as latitudes, tendo entre suas vítimas pessoas afetadas por uma ou várias características de vulnerabilidade da qual se aproveitam os traficantes.

Alvo de duas Comissões Parlamentares de Inquérito no Congresso Federal, o tema do Tráfico Humano não poderia ser abordado em tempo mais oportuno: se a perspectiva de realização no Brasil de mega eventos, como a Copa do Mundo 2014 ou as Olimpíadas 2016, que trarão milhares de visitantes, reaviva a preocupação com o possível recrudescimento de práticas criminosas recorrentes no país, já é realidade consumada, de norte a sul, o rastro de trabalho escravo que acompanha o empreendimento de grandes projetos (como barragens, linhões, ferrovias e outras obras do PAC), a expansão das monoculturas do agronegócio (soja, cana, eucalipto) e o contínuo avanço da pecuária sobre a floresta. Eis uma realidade que não afeta somente o campo, mas sim a cidade: bolivianos e peruanos traficados para o Brasil são escravizados em oficinas clandestinas, a serviço inclusive de grifes famosas. A UNODC (Ofício da ONU sobre Drogas e Crime) estima em 140 mil, o número de pessoas – mulheres principalmente - traficadas e exploradas sexualmente em países da Europa. Entre elas, 13% são sul-americanas. A Espanha é um dos principais destinos, seguida de Itália, Portugal, França, Holanda, Alemanha, Áustria e Suíça. Dentro do Brasil, uma pesquisa identificou 241 rotas de tráfico para fins de exploração sexual.

Segundo a OIM (Organização Internacional para Migrações), o tráfico de pessoas e o contrabando de migrantes estão crescendo na América Latina em função do boom da demanda e da tendência em importar trabalho barato em condições precárias.

Entre 2003 e hoje, a CPT identificou no Brasil cerca de 250 casos de trabalho escravo a cada ano, e as equipes de fiscalização do Ministério do Trabalho já resgataram mais de 38.000 trabalhadores, principalmente no campo: no roço de pasto, na produção de carvão vegetal ou em grandes lavouras. Em 2011 houve libertações em todas as regiões do país, num total de 2501 pessoas, sendo 613 delas em atividades não agrícolas.

Apesar das denúncias gritantes oriundas da Igreja desde o início dos anos 1970 e da mobilização de amplos setores da sociedade, o poder público brasileiro assumiu tardiamente a responsabilidade de enfrentar as várias formas de tráfico humano: Grupo de fiscalização móvel (1995), Plano nacional de erradicação do trabalho escravo I e II (2003 e 2008), Política e Plano nacional de enfrentamento ao tráfico de pessoas (2006 e 2008).

Pela intensa mobilização social e pelos instrumentos originais adotados para combater esse crime (fiscalização móvel, núcleos de enfrentamento ao tráfico de pessoas, lista suja, pacto corporativo e, recentemente, confisco da propriedade), o Brasil chegou a ser considerado como referência nesta luta por dignidade e liberdade. Por outro lado, considerando o enorme potencial disponível para afastar essa chaga, sua persistência constitui-se num escândalo para qualquer cidadão e para qualquer cristão.

Erradicar a chaga do tráfico humano exige muito mais que libertar suas vítimas imediatas; implica em arrancar suas raízes e eliminar os mecanismos que tornam possível sua reprodução: vulnerabilidade da extrema pobreza, ganância de agentes econômicos sem escrúpulo, permanência das desigualdades de gênero, impunidade selada em estruturas mortíferas.

No irmão traficado, na irmã escravizada, é nossa própria filiação divina que vem sendo negada. É a fraternidade que é abolida.

Oxalá a Campanha da Fraternidade 2014 possa acordar comunidades e autoridades do nosso país para uma vigilância redobrada e dinamizar o esforço coletivo para erradicar a chaga do tráfico humano em nosso meio!

Fonte: http://cptpi.blogspot.com.br/2012/07/campanha-da-fraternidade-2014-sera.html

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Juventude e Missionariedade: o que fazer e como?


"Jovens, vocês são templos de Deus, templos do Espírito Santo. No altar dos deuses do mercado, do capital, da droga, do sexismo e do consumismo estão sendo sacrificados milhares de jovens anualmente no Brasil. O Deus da vida chora por causa disso. Todo tanto que fizermos para interrompermos essa matança é pouco. É hora de desmascarar a Idolatria do mercado e do capital", escreve Frei Gilvander Luís Moreira, padre da Ordem dos carmelitas, mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblica, de Roma, Itália; é professor de Teologia Bíblica; assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT -, assessor do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI -, assessor do Serviço de Animação Bíblica - SAB - e da Via Campesina em Minas Gerais, ao descrever as bases para uma Teologia da Missão dos jovens.


Eis o artigo.

“Deixa-me ser jovem, não me impeça de buscar, pois a vida me convida uma missão realizar...”

1. Para início de reflexão

Campanha da Fraternidade de 2013 será sobre Juventude. Que beleza! Mais do que necessária. Oxalá a juventude da igreja católica e de outras igrejas, as comunidades cristãs da Igreja Católica e de outras igrejas e pessoas de boa vontade dêem as mãos e unam os corações para que a Opção Preferencial pelos Pobres e pelos Jovens se torne uma realidade palpável entre nós, na atualidade, no Brasil.

Pediram-me um texto sobre Juventude e Missionariedade, palavra difícil para dizer “missão dos jovens”. Primeiro, digo que descobri minha vocação e missão de ser frei e padre carmelita em um Grupo de Jovem, em Arinos, Noroeste de Minas Gerais. Isso na década de 70 do século XX. Participei, animei e ajudei na coordenação ou assessoria de vários grupos de jovens em Arinos, MG, em Taguatinga/DF, na Vila Parolim, em Curitiba, PR, nas Favelas do Parque Novo Mundo, em São Paulo, SP. E, em 18 anos de padre e 27 de frei, na assessoria da Comissão Pastoral da Terra, do MST  e de Comunidades Eclesiais de Base, tenho tido a alegria de ser militante de várias causas dos pobres ao lado de muitos jovens militantes de Reino de Deus, um reino que passa por Justiça Social e Justiça ambiental. São jovens que, como Che Guevara e/ou Jesus de Nazaré, sempre se comovem com a dor dos empobrecidos, se fazem solidários e ficam possuídos por uma ira santa diante de toda e qualquer injustiça acontecida contra qualquer pessoa (ou ser vivo) e em qualquer parte do mundo. Logo, acredito na Juventude que se levanta para lutar por vida e liberdade para todos e para tudo. Aliás, está se fortalecendo no Brasil o Levante Popular da Juventude , um Movimento muito idôneo e do qual vale a pena participar.

Para refletirmos sobre a Missão dos Jovens (= Missionariedade) é preciso consideramos a Missão – ou as missões – dos Jovens com relação a várias dimensões que envolvem nossa vida. Jovem não deve desenvolver sua missão só dentro das igrejas. É preciso ser luz, sal e fermento na sociedade e em todos os ambientes. Devemos perguntar: Qual a missão dos jovens diante da Espiritualidade? E da afetividade e da sexualidade? E das questões ambientais? E diante da violência que assola a sociedade, fere e mata milhares de jovens? E na Pastoral nas Igrejas e a partir das igrejas? E com relação à Comunicação? Enfim, qual a missão dos jovens a partir da Bíblia? Mas, antes, quais a/s identidade/s do/s jovem/ns, hoje?

2. Jovem, um dinamismo de vida
O jovem, por natureza, é inquieto, busca, questiona, não aceita verdades prontas, quer participar. Muitos sentem que fazem parte ou querem participar. Quantos jovens são cantores, trovadores, poetas, artesãos, artistas que resistem valorizando a cultura popular e as raízes culturais mais profundas.
A Juventude é - em parte e pode ser cada vez mais - expressão de três belíssimas metáforas do Evangelho do jovem Galileu: luz, fermento e sal. Luz para iluminar caminhos e aquecer corações no meio de tanta escuridão eclesiástica/eclesial, social, política, econômica, existencial e ecológica. Fermento para fermentar muita massa sem fisionomia, amorfa e como folha ao vento. Sal para salgar a realidade eclesiástica, eclesial e social que, infelizmente, padece de muita podridão.

3. Olhando para a história

Para sugerirmos algumas missões e tarefas dos jovens, hoje, faz bem olharmos um pouco para a história da nossa América Afrolatíndia.  Segundo Eduardo Galeano, autor do livro As veias abertas da América Latina – de leitura indispensável - e de muitos outros livros necessários para uma boa compreensão da nossa história, “a América Latina é uma peça fundamental para o enriquecimento das nações dominadoras, restando como conseqüência dessa lógica de exploração imperialista o subdesenvolvimento crônico do nosso continente e as intermináveis crises sociais que vivemos por nunca conseguirmos nos desvencilhar do status de colônia. A riqueza das potências é a pobreza da América Latina.”

Como tem sido a participação da juventude brasileira historicamente? Assim como Zumbi dos Palmares e Dandara, sua companheira, muitos jovens negros fugiram das senzalas e construíram resistência nos quilombos. Lutaram e lutam hoje contra muitos tipos de escravidões. Muitos jovens camponeses participaram ativamente das Ligas Camponesas, sob a liderança de Francisco Julião, um jovem advogado sonhador e aguerrido na luta, para quem a Reforma Agrária seria realizada na lei ou na marra. Muitos jovens participaram da Revolução Estudantil em 1968, anos de chumbo.

Na época da ditadura militar, civil e empresarial (de 1964 a 1985), milhares de jovens foram presos, torturados, exilados e muitos outros desaparecidos. Para conhecer melhor o contexto da época dos anos de chumbo, sugiro a leitura do livro Brasil Nunca Mais e, caso você não os conheça, assistir aos seguintes filmes, dentre outros no mesmo tema: 1) Batismo de sangue, 2) Pra frente Brasil, 3) Cabra Cega, 4) Ação entre Amigos, 5) Zuzu Angel, 6) Hércules 56, 7) Dois Córregos, 8) Nunca fomos tão felizes, 9) O Ano em que meus pais saíram de férias, 10) O que é Isso Companheiro?e 11) Araguaia. São filmes que registraram páginas sangrentas dos anos de chumbo no Brasil, nos fazem entender bem o passado e vivenciar nosso presente e planejar nosso futuro.

Resistência cultural também foi realizada por muitos jovens, tais como, Geraldo Vandré (“Quem sabe faz a hora não espera acontecer...”, Chico Buarque (“Pai, afasta de mim este cale-se...”) etc. O movimento da juventude gerou grandes políticos comprometidos com a libertação dos pobres. Isso sem falar dos carapintadas que contribuíram muito para o  Impeachment do presidente Fernando Collor.

3.1 - Década de 60 do século XX até 1989:


A  queda do Muro de Berlim, em 09 de novembro de 1989, marcou simbolicamente a derrocada do socialismo real. Desde a década de 60 até a queda do Muro de Berlim vivíamos sob o signo da Utopia da Grande Revolução. Acreditava-se ser possível superar o capitalismo – e o Capital - e construir o socialismo, uma Sociedade para além do Capital. Pensava-se que poderíamos tomar o Poder a partir do Estado e implantar de cima para baixo a justiça social fazendo revoluções – mais do que reformas - agrária, urbana, educacional e política. As revoluções cubana (1959) e nicaragüense (1979) eram exemplos a serem seguidos e fonte de inspiração para se travar a luta contra a injustiça social. Com o assassinato de Presidente Alliende, eleito democraticamente no Chile, em 11 de setembro de 1973, ofuscou-se a estrela do socialismo que estava irrompendo na América Afrolatíndia. Uma série de golpes militares, arquitetados pelo império estadunidense com forte apoio das elites nacionais aconteceram na América Afrolatíndia: Paraguai, Uruguai, Argentina, Chile, Brasil etc. Na Argentina, cerca de 30 mil jovens foram assassinados. No Brasil, estima-se que foram cerca de 17 mil.

Com a queda do socialismo real, no pós 1989, as sociedades mergulharam na crise das grandes utopias. Inaugurou-se uma época de fortalecimento do capitalismo neoliberal, melhor dizendo, neocolonial. Veio a onda neoliberal e, como um tsunami, levou de roldão centenas de empresas públicas/estatais. No Brasil, só nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB + DEM), mais de 170 empresas estatais foram privatizadas “a preço de banana”. Um imenso patrimônio do povo foi seqüestrado nas mãos de poucas empresas transnacionais. A Vale do Rio Doce, que valia mais de 100 bilhões de reais, foi entregue apenas por 3,2 bilhões de reais. Há mais de cem ações judiciais questionando a privatização da Vale, mas estão todas engavetadas no Poder Judiciário, poder que, infelizmente, defende mais a propriedade do que a dignidade humana.  Companhias de água, energia, telefonia, siderurgia e etc passaram a ser regidas exclusivamente pelo mercado onde a ganância por lucro máximo não tem fim. Além de priorizar o lucro, essas empresas são responsáveis por danos sociais e ambientais em vista dos empreendimentos de alto impacto que patrocinam irresponsavelmente.

Com o eclipse da Utopia da Grande Revolução, uma grande frustração se abateu sobre a esquerda mundial com a derrocada do socialismo real. Muitos diziam que se tornou impossível superar o capitalismo. Um arauto do neoliberalismo, Fukuyama, chegou a anunciar o “fim da história” ao sugerir que agora não seria mais possível implantar nenhum projeto alternativo ao capitalismo. Se fosse assim, restaria apenas a resignação diante do atual sistema é, na prática, uma máquina de moer vidas. Os capitalistas cantaram vitória. Mas a história não acabou. O monstro que é o capitalismo ruge como um leão, mas tem os pés de barro.

Nesse contexto, o foco passa a ser a construção de micro-revoluções. Trata-se de construirmos um Outro Mundo Possível e necessário, mas debaixo para cima e de dentro para fora, a partir dos pobres, tecendo uma rede de movimentos sociais populares em todos os cantos e recantos, em todas as vilas, favelas, bairros, no asfalto e nos morros, no campo e na cidade. Esse movimento está em curso, liderado em grande parte pelo Movimento de Juventude presentes nos vários Movimentos Populares: MST, MAB , Via Campesina, Movimento Indígena, Movimento Negro, Movimento LGBT, Movimento dos Sem Teto, Movimento de Mulheres etc. A juventude presente nas Pastorais Sociais  também participa ativamente da construção de micro-revoluções.

3.2 - Rápida retrospectiva religiosa

Para entender a/s missão/ões do/s jovem/ns, hoje, temos também que fazer uma rápida retrospectiva religiosa. De 1962 a 1965 aconteceu o Concílio Vaticano II, que abriu a Igreja Católica para os bons ventos do mundo. Muitos dizem que João XXIII, o papa que convocou e abriu o Concílio, na abertura do Concílio teria aberto as janelas do Vaticano e dito: “Que os bons ventos do mundo inundem a Igreja e  oxigene-a internamente.” No Vaticano II a Igreja se reconheceu como Povo de Deus, abriu-se para o ecumenismo e para a inculturação. Os leigos foram valorizados e diálogos com o mundo moderno iniciaram-se. Vários movimentos eclesiais tornaram possível a realização do Concílio e foram fortalecidos pelos Documentos do Vaticano II: Movimento litúrgico, movimento bíblico, movimento leigo, Movimento ecumênico, entre outros.

Quatro conferências dos bispos da América Afrolatíndia contribuíram muito para que os bons ventos do Vaticano II fossem assimilados entre nós. Na Conferência episcopal de Medelin, na Colômbia, em 1968, a Opção pelos Pobres e pelos Jovens foi consagrada. Em Puebla, no México, em 1979, a Opção pelos Pobres e pelos Jovens foi confirmada. Em Santo Domingos, na República Dominicana, em 1992 - quando clamávamos por Outros 500 anos sem opressão, sem colonização, sem imposição cultural e religiosa – a inculturação e o protagonismo das/os leigas/os foi referendado. Em Aparecida, no Brasil, em 2007, na 5ª Conferência episcopal latino-americana, os pontos fortes deMedelinPuebla Santo Domingos foram resgatados e o reconhecimento das Comunidades Eclesiais de Base foi atestado mais uma vez.

Movida e inspirada pela Teologia Política da Europa, a Ação Católica chegou ao Brasil no clima espiritual e profético do Vaticano II. A Ação Católica contava com cinco organizações destinadas aos jovens: JAC, JEC, JIC, JOC, JUC . A JUC ajudou muito na criação da Ação Popular que lutava por Reformas de Base como a reforma agrária.

A Ação Católica contribuiu muito na construção do que é hoje a Pastoral da Juventude. Ajudou muito no nascimento e crescimento das CEBs. O papa Paulo VI continuou o Vaticano II e como pontífice colocou em prática as inspirações e os documentos conciliares. Paulo VI disse: “A melhor forma de amar o próximo é fazer política, pois esta ataca os problemas pela raiz.” Assim, Paulo VI ajudou muito as comunidades cristãs a experimentar a íntima relação que há entre fé e política, entre Evangelho e questões sócio-ambientais.  

4. E os jovens na Bíblia?

Para se compreender a Missão dos jovens, hoje, é preciso também contemplar a atuação de muitos jovens que pelo que fizeram e ensinaram se imortalizaram na Bíblia. Cito apenas onze.
1. No livro de Gênesis (Gn 37-50), o jovem José, vendido pelos irmãos, dá a volta por cima e se transforma em um libertador do seu povo e dos seus irmãos.

2. Samuel foi um jovem que soube ouvir a voz de Deus e entrou para a história como um dos iniciadores da profecia (Cf. Samuel 1 a 16).

3. O jovem Davi reuniu os desvalidos da sociedade e liderou uma grande resistência popular que o tornou rei de seu povo. Davi, inclusive, desafiou o “invencível” Golias e dominou. Entrou para a história como um dos três reis bons: Davi, Ezequias e Josias.

4. Amós, um jovem camponês vaqueiro, pequeno agricultor, se tornou o profeta da justiça social. Fervia o sangue de indignação contra a opressão dos latifundiários. Clamava por preços justos para os produtos do campo e por Reforma Agrária. 

5. O profeta Jeremias, com apenas 18 anos, se tornou um grande profeta.

6. Bela órfã judia, a jovem Ester, por sua atuação, foi decisiva para livrar seu povo do aniquilamento.

7. O jovem Daniel, exilado na Babilônia com seu povo, tornou-se um dos maiores profetas de todos os tempos.

8. A jovem Maria de Nazaré, por amor, abraçou o projeto de Deus. Arriscou ser apedrejada. Tornou-se solidária e libertadora de seu povo. Acompanhou Jesus de ponta a ponta e depois da paixão e ressurreição de Jesus, eis Maria no meio das primeiras pessoas que fizeram a experiência da ressurreição de Jesus.

9. José, o pai de Jesus, colocado pela tradição como um idoso, deve ter sido enquanto jovem que, por amor, abraçou a “Menina de Nazaré” e, como homem justo, ao lado de Maria, foi decisivo para que Jesus crescesse em estatura, sabedoria e graça.

10. João Batista, ainda jovem, liderou um grande movimento popular-religioso que lutava contra as desigualdades sociais e econômicas. Foi preso e decapitado pelo governador Herodes Antipas, porque estava liderando uma insurreição popular, ameaçava o status quo.

11. Jesus de Nazaré fez história em plena juventude. Foi condenado à pena de morte aos 33 anos, diz a tradição. A entrada de Jesus em Jerusalém (Lc 19,28-40), o que se recorda no Domingo de Ramos, foi organizada e realizada pelos camponeses da Galileia. No meio deles, muitos jovens.


O de número doze é cada um/a um/a de nós que somos carinhosamente convidados por esses e essas jovens da Bíblia a assumir nossa missão e fazermos a diferença, combatendo o bom combate. 

5. Missão e tarefas dos jovens, hoje


Considerando as muitas dimensões da pessoa humana, pensamos que a Missão dos Jovens, hoje, deve envolver várias dimensões humanas e levando em conta o abordado anteriormente, entre muitas missões/tarefas que estão clamando para serem abraçadas pelos jovens, hoje, destacamos:

5.1 – Fazer Teologia da Juventude


Teologia não é uma reflexão sobre Deus, mas uma reflexão sobre qualquer assunto a partir da fé no Deus solidário e libertador. Teologia não pode andar no cabresto do papa e nem dos bispos. Não pode ser apologética, isto é, justificadora da Instituição Igreja. A partir do ser jovem, da realidade que é e envolve a juventude precisamos pensar: o que o Deus da vida pede de nós diante de tantos desafios que estão no colo da juventude?

Jovens, vocês são templos de Deus, templos do Espírito Santo. No altar dos deuses do mercado, do capital, da droga, do sexismo e do consumismo estão sendo sacrificados milhares de jovens anualmente no Brasil. O Deus da vida chora por causa disso. Todo tanto que fizermos para interrompermos essa matança é pouco. É hora de desmascarar a Idolatria do mercado e do capital. 

5.2 – Promover libertação integral


Intuo que uma das tarefas missionários dos jovens é lutar pela libertação integral das pessoas e de tudo e não apenas por libertação espiritual. No programa de Jesus, em Lc 4,16-21, consta uma libertação política (“libertar os presos”), social e econômica (“anunciar uma boa notícia aos pobres”), libertação ideológica (“restituir a visão”, e espiritual (“proclamar o Ano de Graça do Senhor”). Assim, Jesus resgata o Jubileu Bíblico (Cf. Lev 25,8-12). No ano do Jubileu, toca-se o “berrante” (em hebraico “sofar”), que acontece no primeiro ano após sete vezes sete anos. Neste Jubileu, todas as dívidas devem ser perdoadas; todas as terras devem voltar ao primeiro dono (aos ancestrais); todos os escravos devem ser libertados. Enfim, é tempo de se fazer uma re-organização geral na sociedade; tempo para recriar a Vida e as relações humanas com fraternidade, solidariedade libertadora, reconciliação e novos sonhos.

5.3 – Acreditar na ortopráxis, sim; ortodoxia, não!

Outra missão dos jovens é defender uma ortopráxis (= testemunho libertador), não uma ortodoxia (= opinião certa). O que de fato faz diferença não é tanto o que a gente pensa ou em que acreditamos, mas o que fazemos (ou deixamos de fazer). É hora de compromisso com um outro projeto de sociedade, que seja justo, ecumênico e sustentável ecologicamente. 

5.4 - Rever conceitos.


Verdade não é adequação de um conceito a um objeto. Isso é verdade formal. “Verdade é o que liberta todos e tudo”, diz o quarto evangelho da Bíblia. A verdade deve ser buscada conjuntamente. Ninguém é dono da verdade, mas verdade como o que liberta deve ser buscada a partir dos pobres (últimos, pequenos, discriminados): pobre, excluído, sem terra, indígenas, negros, pessoas com deficiências, idosos, desempregados, homossexuais, mãe terra, irmã água, favelados, vítimas da violência etc.

5.5 - Sentir-se igreja, membro vivo de uma comunidade de fé libertadora.

“Igreja é Povo de Deus”, nos ensina o Vaticano II. È hora de percebermos que o sacerdócio comum está acima do sacerdócio ordenado. Os jovens não podem aceitar uma relação que os coloquem como infantis e em uma postura de quem só deve obedecer. Nada disso. Os jovens têm o direito e o dever de dialogar, discutir e reivindicar o direito de decidir conjuntamente todos os assuntos que envolvem a vida da comunidade cristã e da sociedade.
É hora de perceber que a coisa sagrada é também profana. Profanar é retirar do uso exclusivo para dar acesso a todos. Pro-fanar vem do verbo grego faneo, que quer dizer “brilhar”. Ou seja, que o brilho do sagrado seja estendido a todos sem distinção e sem nenhuma discriminação. É hora de gritar “Não a todo e qualquer dualismo!” Não há separação entre espiritual e material, entre sagrado em profano, entre divino e humano, entre santo e pecador, entre puro e impuro etc. Tudo está intimamente relacionado.
Jesus não morreu na cruz porque Deus quis, mas foi condenado à pena de morte pelos podres poderes político-econômico e religioso.
Jesus doou sua vida por todos e tudo. Jesus nos salva porque nos amou demais e não porque sofreu demais.
Jesus não nasceu Cristo, mas tornou-se Cristo, pois conseguiu desenvolver o infinito potencial de humanidade que cada pessoa traz consigo ao chegar a este mundo. “Jesus foi tão humano, tão humano, que só podia ser Deus”, disse o papa Paulo VI.
Milagre não é algo fruto de um poder extraordinário que está acima do humano.
Milagre é uma maravilha de Deus, conforme diz o Primeiro Testamento da Bíblia.
Milagre é um gesto solidário e libertador de Deus agindo nas entranhas da história.
Deus não é juiz, pois Deus é amor. Ou melhor, o amor é Deus.
Deus não é transcendente, mas transdescendente. Na Bíblia, de ponta a ponta, vemos a imagem de um Deus apaixonado pelo humano.
Deus não é neutro diante dos conflitos. Deus faz opção preferencial pelos pobres (cf. Ex 3,7-10).

Não existe inferno, nem purgatório e nem limbo como locais destinados aos pecadores, como descrito de forma tradicionalista por muitos nas igrejas. Satanás (satã, em hebraico) ou diabo (diabolos, em grego) não são entes abstratos, um deus negativo que faz oposição ao Deus da vida. Satanás (diabo) é tudo o que divide, separa, desune, oprime, exclui, discrimina e depreda. Pode ser uma dimensão interior nossa, mas em uma sociedade capitalista neoliberal como a nossa, trata-se prioritariamente de estruturas e instituições que oprimem, excluem e depreda a natureza. Podemos dizer que o agronegócio é satânico, pois concentra riqueza em poucas mãos, expulsa os pequenos do campo e devasta a biodiversidade. Uma democracia burguesa formal que não respeita a Constituição Brasileira e pisa na dignidade das pessoas é uma falsa democracia, algo também satânico.

Ser cristão implica ser anticapitalista. Não dá para compactuar com os pretensos valores do capitalismo: concorrência, competição, acumulação, lucrar e lucrar. Ser cristão é ser outro Cristo, alguém que consola os aflitos, mas que também incomoda os acomodados. Tarefa da pessoa cristã é buscar vida e liberdade para todos e tudo – e não apenas para alguns - mas a partir dos últimos.

5.6 – Comprometer-se com a Opção pelos pobres e pelos jovens

O apóstolo Paulo, ao escrever sobre o Concílio de Jerusalém, acontecido por volta dos anos 49/50 do 1º século diz que a circuncisão, a maior de todas as barreiras, tinha sido abolida e que a única coisa que os apóstolos fizeram questão de alertar foi: “Não esqueçam os pobres.” (Gal 2,10) Esse alerta deve ser acolhido pelos jovens também. Mas faz bem ter um bom entendimento sobre quem é pobre. Primeiro, o carente economicamente. Depois, a mulher, o indígena, o negro, o homossexual, a divorciada, a mãe terra, a irmã água, o meio ambiente.

Teologia da Libertação não vê o pobre apenas como um poço de carência, como um coitado, mas, principalmente, como um portador de força ética e espiritual. Deus age a partir dos pequenos. A Teologia da Libertação acredita que “o mundo será melhor quando o menor que padece acreditar no menor”, conforme dizia Dom Hélder Câmara, o santo rebelde.

6. Enfim...

Contamos com os jovens, como protagonistas de sua história, para vivenciar a Opção preferencial pelos Pobres e pelos Jovens, buscar alternativas para a superação da atual crise sócio-política-econômica-cultural e religiosa. Apoiar firmemente a Economia Popular Solidária, as lutas pela Reforma Agrária, por agricultura familiar, por preservação ambiental, pela mudança do atual modelo econômico neoliberal. Queremos um modelo econômico que seja popular, democrático, soberano, inclusivo e sustentável ecologicamente. Queremos construir um outro modelo de igreja, onde, de fato, igreja seja povo de Deus, em comunidades que se relacionam em sistema de rede. 

Apêndice


Sugestão: textos e eventos bíblicos libertadores que podem inspirar a Missão dos jovens:

1)    Gn 1: Toda a Criação é muito boa, imagem e semelhança de Deus.
2)    Ex 1,15-22: O Movimento das parteiras faz Desobediência civil e religiosa. Cf. Gandhi, Martin Luther King, as camponesas da Via Campesina.
3)    Ex 3,7-10: Deus opta pelos pobres.
4)    Davi vence Golias.
5)    Is 65,17-25: Eis um novo céu e uma nova Terra.
6)    Dn 2,31-37: Uma pedrinha destrói um gigante de pés de barro – a força da profecia.
7)    Jo 6,1-15: Solução radical para a fome de pão – partilha de pães.
8)    Mt 21,12-13: Jesus expulsa os capitalistas do Templo.
9)    Jovens camponeses, João Batista e Jesus se tornam líderes de libertação.
10)    Ap 12,1-17: Uma mulher grávida, em dores de parto, vence um Dragão.
11)    At 21,1-7: Deus deixa o céu e arma sua tenda no meio dos pobres.

Estudo mapeia morte de jovens no Brasil


Era 26 de março de 2010 quando o jovem Rafael Souza de Abreu, 16, virou mais um número para pesquisadores de segurança pública.Nessa data, ele foi morto com oito tiros perto da casa de um amigo em Santos (SP).

Segundo seu pai, o operador portuário José de Abreu, e a Promotoria, o rapaz foi confundido com um ladrão de uma loja de roupas e foi morto em represália a um furto que não praticou.

Assim, ele passou a ser um dos 8.686 adolescentes e crianças assassinados naquele ano e engrossou a lista que, desde 1980, aumentou 376%. No mesmo período, entre 1980 e 2010, os homicídios como um todo cresceram 259%.

Os dados são do "Mapa da Violência 2012 - Crianças e Adolescentes do Brasil", pesquisa que será lançada hoje.

O levantamento analisa as informações do Ministério da Saúde sobre as causas das mortes de pessoas entre zero e 19 anos de idade.

O ritmo de crescimento da morte entre jovens é constante. Em 30 anos, só teve queda quatro vezes. Nos demais aumentou entre 0,7% e 30%.




Um dado que chamou a atenção do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador da pesquisa, foi quanto os homicídios de jovens representava no total de mortes. Em 1980, eles eram pouco mais de 11% dos casos de assassinato. Já em 2010, 43%.

"Os homicídios de jovens continuam sendo o calcanhar de aquiles do governo. Esse aumento mostra que criança e adolescente não são prioridade dos governos", disse.

Entre os Estados em que houve maior aumento dos assassinatos de jovens estão Alagoas, com uma taxa de 34,8 homicídios por 100 mil habitantes, Espírito Santo (33,8) e Bahia (23,8).

Segundo Waiselfisz, vários fatores influenciam o aumento em determinadas regiões. Um deles é a interiorização dos homicídios.

"Antes, a maior parte dos crimes acontecia nos grandes centros. Agora, com a melhor distribuição de renda, houve uma migração da população e os governos não conseguiram implantar políticas públicas para acompanhar essa mudança", disse.

Os Estados que apresentaram as menores taxas foram Santa Catarina, (6,4), São Paulo (5,4) e Piauí (3,6).

Para Alba Zaluar, antropóloga da Universidade Estadual do Rio, os dados devem ser analisados com "cuidado", já que entre 2002 e 2010 houve uma melhora na qualificação das estatísticas sobre mortes. Ou seja, casos que antes constavam como "outras violências" nos dados oficiais passaram a ser homicídios.

"É muito complicado falar do aumento de mortes por agressão no Brasil como um todo", afirmou Zaluar.

Waiselfisz diz que a pesquisa aponta que os problemas existem e serve de alerta para governos tentarem reduzir o índice, que já incluiu o assassinato do jovem Rafael.

Em tempo: quatro pessoas, sendo três policiais, foram acusadas pela morte do adolescente. Mas o julgamento ainda não aconteceu.

Por Afonso Benites - São Paulo 

terça-feira, 17 de julho de 2012

Rio + 20 e Cúpula dos Povos: Um balanço


Em junho de 2012 ocorreram dois encontros mundiais na cidade do Rio de Janeiro: a Rio + 20 e a Cúpula dos Povos. As duas reuniões representam a situação atual nas questões políticas, econômicas e ambientais. Foram duas manifestações de um embate que está longe de seu fim.

A Rio + 20 foi o evento oficial da ONU para avaliar os resultados de 20 anos de políticas em prol do desenvolvimento sustentável propostas na Conferência do Rio de 1992. A Cúpula dos Povos foi um evento de organizações da sociedade civil preocupadas com a questão ambiental, o combate à miséria, a degradação cultural e a luta por justiça no mundo. O formato repetiu o que ocorreu em 92, quando a ONU organizou a Conferência do Meio Ambiente (a Eco 92) e a sociedade civil realizou o Fórum Global.

Em 92, houve a entronização oficial da questão ambiental na agenda oficial do planeta. Pressionados por um movimento social intenso, foram acertados vários acordos sobre temas cruciais como biodiversidade, mudanças climáticas, combate à miséria e a luta contra a poluição e a formação de uma mentalidade ecológica na população.

Passados vinte anos, todo aquele esforço não se manifestou em ações tão fortes como as desejadas em 92. É verdade que houve um avanço grande na consciência ambiental da população como um todo. Mas muitos agentes econômicos fortes agiram para postergar a efetivação de medidas que contrariavam seus interesses imediatos.

A ONU não conseguiu se impor porque muitos dos governos mais poderosos do planeta não aderiram aos acordos propostos em 92 por conta de interesses internos. Talvez isso explique a frustração de muita gente com os resultados da Rio + 20. A meta de implantar medidas para alcançar o desenvolvimento sustentável foi adiada para 2014 e a forma de financiá-las ficou para 2015. O Programa das Nações Unidas para Meio Ambiente segue como Programa e não se converteu em Agência de Meio Ambiente como muitos queriam, para ele ter mais força.

A crise econômica da primeira década do milênio fez com que mais uma vez a prioridade para as questões ambientais e sociais fosse adiada. As grandes corporações econômicas procuraram se apresentar como agentes de construção de sustentabilidade. Mas a maioria apenas faz disso uma fachada verde para ocultar seu verdadeiro objetivo de aferir grandes lucros com a continuidade do modelo concentrador de renda e consumidor da natureza que praticam.

A sociedade civil vai ter que continuar lutando para mudar essas coisas. Na Cúpula dos Povos se pôde ver que essa percepção cresce cada vez mais na formatação de uma agenda comum em prol do futuro do planeta. A Cúpula foi um evento aberto à livre participação, feito em praça pública, com poucos recursos, que foi às ruas mostrar força. Diferente da Rio + 20, que se desenrolou a portas fechadas, num lugar distante e protegida por forte esquema de segurança, como poucas vezes se viu no Brasil.

Essas duas reuniões representam bem o atual estado das coisas. Por um lado, uma elite política aliada com a elite econômica transnacional tenta continuar a controlar os destinos do mundo ao seu favor, apenas com um verniz verde para disfarçar. Por outro lado, forças populares embasadas num processo econômico solidário, buscando construir um mundo que atenda as necessidades humanas de forma justa e equilibrada, respeitando e resgatando o equilíbrio do planeta.

Um embate que ainda vai continuar por um bom tempo.

Enquanto isso, o presidente esquerdista do Paraguai foi derrubado num processo relâmpago muito estranho, e o governo brasileiro baixou para zero um imposto sobre combustíveis para manter a gasolina relativamente barata e atrasar ainda mais o domínio do álcool nos automóveis.

Sinais de que a velha ordem política e econômica segue agindo com seus velhos métodos para seguir mandando no planeta, ainda que com o sacrifício de todas as demais formas de vida.

Arno Kayser agrônomo, ecologista e escritor.


Lançamento do blog PJ na JMJ


Galera Pejoteira de todo Brasil, é com muita alegria que a Pastoral da Juventude Nacional lança seu blog para a Jornada Mundial da Juventude! Queremos neste espaço provocar toda a juventude a dar seu testemunho a partir do processo que tem sido construído no Brasil para a grande celebração em 2013 no Rio de Janeiro.


Compartilhe com seus amigos em suas redes sociais esse novo endereço www.pj.org.br/jmj! Esse nosso Blog será um espaço para que os Grupos de Base Pejoteiros espalhados pelo nosso país possam acompanhar tudo o que está rolando sobre aJornada Mundial da Juventude de 2013.

Temos o espaço “Já fui” para as partilhas de quem já foi em alguma JMJ comentar sobre as experiências  vividas. Temos ainda a página da “Peregrinação da Cruz e Ícone” onde quem já recebeu esses símbolos em sua Diocese pode partilhar como foi a participação dos Grupos de Base nesse momento. Na página “Materiais” vocês encontrarão materiais para ajudar os Grupos de Base a celebrar esse importante momento da nossa Igreja, subsídios, roteiros e muito mais.

Um forte abraço e nos encontramos tanto por aqui, nas redes sociais, quanto nas estradas da vida que nos conduzem ao Reino!

Fonte: Equipe Nacional do projeto Teias da Comunicação