Mostrando postagens com marcador ARTIGO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ARTIGO. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Princípios da Ilegalidade da Pobreza
Banir a pobreza: um movimento e uma campanha para fazer com que a ONU considere ilegal a condição de grandes massas humanas e para explicar que tudo depende dos sistemas econômicos que produzem exclusão, desigualdade, injustiça. Doze princípios para combater a criação dos novos pobres.
Foi feita. No sábado, 8 de setembro, a tradicional "Marcha pela Justiça Agliana-Quarrata", organizada pela Rede Radiè Resch, foi dedicada ao lançamento na Itália da campanha "Banimos a pobreza". Concebida por um coletivo de 24 associações, por iniciativa da Universidade do Bem Comum e da Associação do Mosteiro do Bem Comum, a campanha visa a obter em 2018 (70º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas) uma resolução da Assembleia Geral da ONU com a qual os Estados declarem ilegais as leis, as instituições e as práticas sociais e coletivas que geram e alimentam os processos de empobrecimento nos vários países e regiões do mundo. Será como foi quando os vários povos declararam ilegal a escravidão.
"Banimos" significa que nós, cidadãos, em particular italianos, belgas, quebequenses, argentinos e também malaios, indonésios, filipinos... (que estarão entre os povos que participarão da campanha) iniciamos um processo de mobilização civil e política contra as causas estruturais da pobreza.
Os 12 princípios da ilegalidade da pobreza
Primeiro princípio: "Ninguém nasce pobre nem escolher ser ou se tornar pobre". É o estado da sociedade em que nascemos que nos torna pobres ou ricos. Pode-se decidir viver em uma situação de grande sobriedade, mas não é a pobreza sofrida pelos três bilhões de seres humanos que estão excluídos do direito a uma vida digna, contra a sua vontade e desejo.
Segundo princípio: "Tornamo-nos pobres. A pobreza é uma construção social". A pobreza não é um fato da natureza como a chuva. É um fenômeno social, construído e produzido pelas sociedades humanas. As empresas escandinavas dos anos 1960 e 1980 conseguiram fazer desaparecer os processos estruturais de empobrecimento. Outras sociedades, ao invés, fundamentadas em princípios e práticas sociais diferentes das escandinavas, produziram e produzem inevitavelmente fenômenos de extensa pobreza. É o caso dos Estados Unidos.
O terceiro princípio reforça os dois primeiros: "Não é somente nem principalmente a sociedade pobre que produz pobreza". Os EUA são o país mais rico do mundo em termos monetários, mas o empobrecimento de dezenas de milhões (de 300 milhões) dos seus cidadãos faz parte da sua história.
Quarto princípio: "A exclusão produz o empobrecimento". A fatalidade ou a má sorte não são a causa do empobrecimento, mas sim as formas de exclusão deliberada do acesso às condições de cidadania civil, política e social.
Por essas razões, o quinto princípio: "Como processo estrutural, o empobrecimento é coletivo". Não diz respeito apenas a uma pessoa ou a uma família, mas sim a populações inteiras (as famílias de imigrantes, nômades, vilarejos sem futuro, zonas atingidas por recessões econômicas, habitantes de bairros degradados...), e categorias sociais (trabalhadores, agricultores, segmentos da classe mídia, crianças, mulheres, jovens que não conseguem entrar no mundo do trabalho, idosos...).
Primeira grande conclusão, sexto princípio: "O empobrecimento é filho de uma sociedade que não acredita nos direitos de vida e de cidadania para todos nem na responsabilidade política coletiva para garantir tais direitos a todos os habitantes da Terra". Os grupos dominantes não acreditam na existência dos direitos humanos de vida e de cidadania (universais, indivisíveis, imprescritíveis). Eles acreditam, ao invés, na igualdade "natural", hereditária, entre as pessoas, e nos direitos fundamentados no mérito. Os ricos o são porque se esforçaram, e por isso são meritórios. Os pobres o são porque não trabalharam duro, porque são inaptos e incapazes, e por isso culpados pelo seu estado.
Nesse sentido, sétimo princípio: "Os processos de empobrecimento somente ocorrem em sociedades injustas", isto é, negadoras da universalidade, da indivisibilidade e da imprescritibilidade dos direitos de vida e de cidadania. Nas sociedades injustas, o acesso só pode ser seletivo e condicionado de acordo com as regras e os critérios estabelecidos pelos grupos dominantes.
O oitavo princípio descende do anterior: "A luta contra a pobreza (o empobrecimento) é acima de tudo a luta contra a riqueza desigual, injusta e predatória (o enriquecimento)". Há empobrecimento porque há enriquecimento. Quanto mais as nossas sociedades se enriqueceram sobre bases desiguais, injustas e predatórias, mais elas deram valor unicamente à riqueza individual e apagaram do imaginário dos povos a cultura da riqueza coletiva, particularmente dos bens comuns públicos.
Daí o nono princípio: "O planeta dos empobrecidos tornou-se populoso por causa da mercantilização dos bens comuns e da vida". O trabalho, os direitos, a proteção social foram tratados como custos e, como tais, devem ser racionalizados, cortados e/ou privatizados. Não há comunidades humanas, mas sim mercados.
Nesse contexto, o décimo princípio: "As políticas de redução e de eliminação da pobreza buscadas nos últimos 40 anos fracassaram porque só podiam atacar os sintomas (medidas curativas) e não as causas (medidas resolutivas)".
Dupla conclusão geral. Décimo primeiro princípio: "A pobreza é hoje uma das formas mais avançadas de escravidão, porque se baseia em um furto de humanidade e de futuro", e décimo segundo princípio: "Para libertar a sociedade do empobrecimento é preciso banir as leis, as instituições e as práticas sociais coletivas que geram e alimentam os processos de empobrecimento".
Riccardo Petrella é professor emérito da Université Catholique de Louvain. O artigo foi escritor em nome de um coletivo de 33 pessoas, representantes de 24 associações e organizações da sociedade civil (http://www.banningpoverty.org/en).
(tradução de Moisés Sbardelotto, do IHU)
Marcadores:
ARTIGO
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Fracasso do neoconservadorismo católico brasileiro
Os dados do último censo demográfico revelaram uma queda no número de católicos no Brasil. Segundo as estimativas a percentagem caiu de 83,34% para 67,84% nos últimos 20 anos. A questão foi discutida na última assembleia geral da CNBB, em abril deste ano, em Aparecida (SP). Alguns bispos ficaram horrorizados com a notícia. Outros tentaram minimizar os dados, achando que se tratava de "intriga da oposição”. Outros, talvez mais realistas, não se assustaram com os dados do IBGE.
Marcadores:
ARTIGO
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Jovens, os que podem mudar
Anseio por renovação, por melhoria, exigência de um mundo melhor e mais justo, são ingredientes presentes na juventude, independente da geração a qual ela pertence. E sabemos que mais do que nunca esta matéria-prima é o que está faltando na política brasileira.
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Juventude e Missionariedade: o que fazer e como?
"Jovens,
vocês são templos de Deus, templos do Espírito Santo. No altar dos deuses do
mercado, do capital, da droga, do sexismo e do consumismo estão sendo
sacrificados milhares de jovens anualmente no Brasil. O Deus da vida chora por
causa disso. Todo tanto que fizermos para interrompermos essa matança é pouco.
É hora de desmascarar a Idolatria do mercado e do capital", escreve Frei Gilvander Luís Moreira,
padre da Ordem dos carmelitas, mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício
Instituto Bíblica, de Roma, Itália; é professor de Teologia Bíblica; assessor
da Comissão Pastoral da Terra – CPT -, assessor do Centro Ecumênico de Estudos
Bíblicos – CEBI -, assessor do Serviço de Animação Bíblica - SAB - e da Via
Campesina em Minas Gerais, ao descrever as bases para uma Teologia da Missão
dos jovens.
Eis
o artigo.
“Deixa-me ser jovem, não me impeça de buscar, pois a vida me
convida uma missão realizar...”
1. Para início de reflexão
A Campanha da Fraternidade de
2013 será sobre Juventude. Que beleza! Mais do que necessária. Oxalá a juventude
da igreja católica e de outras igrejas, as comunidades cristãs da Igreja
Católica e de outras igrejas e pessoas de boa vontade dêem as mãos e unam os
corações para que a Opção Preferencial pelos Pobres e pelos Jovens se torne uma
realidade palpável entre nós, na atualidade, no Brasil.
Pediram-me um texto sobre Juventude e Missionariedade, palavra difícil
para dizer “missão dos jovens”. Primeiro, digo que descobri minha vocação e
missão de ser frei e padre carmelita em um Grupo de Jovem, em Arinos,
Noroeste de Minas Gerais. Isso na década de 70 do século XX. Participei, animei
e ajudei na coordenação ou assessoria de vários grupos de jovens em Arinos, MG,
em Taguatinga/DF,
na Vila Parolim, em Curitiba,
PR, nas Favelas do Parque
Novo Mundo, em São Paulo, SP. E, em 18 anos de padre e 27 de
frei, na assessoria da Comissão Pastoral da Terra, do MST e de
Comunidades Eclesiais de Base, tenho tido a alegria de ser militante de várias
causas dos pobres ao lado de muitos jovens militantes de Reino de Deus, um reino
que passa por Justiça Social e Justiça ambiental. São jovens que, como Che Guevara e/ou
Jesus de Nazaré, sempre se comovem com a dor dos empobrecidos, se fazem
solidários e ficam possuídos por uma ira santa diante de toda e qualquer
injustiça acontecida contra qualquer pessoa (ou ser vivo) e em qualquer parte
do mundo. Logo, acredito na Juventude que se levanta para lutar por vida e
liberdade para todos e para tudo. Aliás, está se fortalecendo no Brasil o
Levante Popular da Juventude , um Movimento muito idôneo e do qual vale a pena
participar.
Para refletirmos sobre a Missão dos Jovens (= Missionariedade) é preciso
consideramos a Missão – ou as missões – dos Jovens com relação a várias
dimensões que envolvem nossa vida. Jovem não deve desenvolver sua missão só
dentro das igrejas. É preciso ser luz, sal e fermento na sociedade e em todos
os ambientes. Devemos perguntar: Qual a missão dos jovens diante da
Espiritualidade? E da afetividade e da sexualidade? E das questões ambientais?
E diante da violência que assola a sociedade, fere e mata milhares de jovens? E
na Pastoral nas Igrejas e a partir das igrejas? E com relação à Comunicação?
Enfim, qual a missão dos jovens a partir da Bíblia? Mas, antes, quais a/s
identidade/s do/s jovem/ns, hoje?
2. Jovem, um dinamismo de vida
O jovem, por natureza, é inquieto, busca, questiona, não aceita verdades
prontas, quer participar. Muitos sentem que fazem parte ou querem participar.
Quantos jovens são cantores, trovadores, poetas, artesãos, artistas que
resistem valorizando a cultura popular e as raízes culturais mais profundas.
A Juventude é - em parte e pode ser cada vez mais - expressão de três
belíssimas metáforas do Evangelho do jovem Galileu: luz, fermento e sal. Luz para iluminar caminhos e
aquecer corações no meio de tanta escuridão eclesiástica/eclesial, social,
política, econômica, existencial e ecológica. Fermento para fermentar muita
massa sem fisionomia, amorfa e como folha ao vento. Sal para salgar a realidade
eclesiástica, eclesial e social que, infelizmente, padece de muita podridão.
3. Olhando para a história
Para sugerirmos algumas missões e tarefas dos jovens, hoje, faz bem
olharmos um pouco para a história da nossa América Afrolatíndia. Segundo Eduardo Galeano, autor do
livro As veias abertas da América Latina – de leitura
indispensável - e de muitos outros livros necessários para uma boa compreensão
da nossa história, “a América Latina é uma peça fundamental para o
enriquecimento das nações dominadoras, restando como conseqüência dessa lógica
de exploração imperialista o subdesenvolvimento crônico do nosso continente e
as intermináveis crises sociais que vivemos por nunca conseguirmos nos
desvencilhar do status de colônia. A riqueza das potências é a pobreza da
América Latina.”
Como tem sido a participação da juventude brasileira historicamente?
Assim como Zumbi dos Palmares e Dandara,
sua companheira, muitos jovens negros fugiram das senzalas e construíram
resistência nos quilombos. Lutaram e lutam hoje contra muitos tipos de
escravidões. Muitos jovens camponeses participaram ativamente das Ligas Camponesas, sob a
liderança de Francisco Julião, um jovem
advogado sonhador e aguerrido na luta, para quem a Reforma Agrária seria
realizada na lei ou na marra. Muitos jovens participaram da Revolução
Estudantil em 1968, anos de chumbo.
Na época da ditadura militar, civil e empresarial (de 1964 a 1985),
milhares de jovens foram presos, torturados, exilados e muitos outros
desaparecidos. Para conhecer melhor o contexto da época dos anos de chumbo,
sugiro a leitura do livro Brasil Nunca Mais e, caso você não os conheça,
assistir aos seguintes filmes, dentre outros no mesmo tema: 1) Batismo de
sangue, 2) Pra frente Brasil, 3) Cabra Cega, 4) Ação entre Amigos, 5) Zuzu
Angel, 6) Hércules 56, 7) Dois Córregos, 8) Nunca fomos tão felizes, 9) O Ano
em que meus pais saíram de férias, 10) O que é Isso Companheiro?e 11) Araguaia.
São filmes que registraram páginas sangrentas dos anos de chumbo no Brasil,
nos fazem entender bem o passado e vivenciar nosso presente e planejar nosso
futuro.
Resistência cultural também foi realizada por muitos jovens, tais como, Geraldo Vandré (“Quem
sabe faz a hora não espera acontecer...”, Chico Buarque (“Pai, afasta de mim este cale-se...”)
etc. O movimento da juventude gerou grandes políticos comprometidos com a
libertação dos pobres. Isso sem falar dos carapintadas que contribuíram muito
para o Impeachment do presidente
Fernando Collor.
3.1 - Década de 60 do século XX até 1989:
A queda do Muro de Berlim,
em 09 de novembro de 1989, marcou simbolicamente a derrocada do socialismo
real. Desde a década de 60 até a queda do Muro de Berlim vivíamos sob o signo
da Utopia da Grande Revolução. Acreditava-se ser possível superar o capitalismo
– e o Capital - e construir o socialismo, uma Sociedade para além do Capital.
Pensava-se que poderíamos tomar o Poder a partir do Estado e implantar de cima
para baixo a justiça social fazendo revoluções – mais do que reformas -
agrária, urbana, educacional e política. As revoluções cubana (1959) e
nicaragüense (1979) eram exemplos a serem seguidos e fonte de inspiração para
se travar a luta contra a injustiça social. Com o assassinato de Presidente Alliende,
eleito democraticamente no Chile, em 11 de setembro de 1973, ofuscou-se a estrela do
socialismo que estava irrompendo na América Afrolatíndia. Uma série de golpes
militares, arquitetados pelo império estadunidense com forte apoio das elites
nacionais aconteceram na América Afrolatíndia: Paraguai, Uruguai, Argentina,
Chile, Brasil etc. Na Argentina, cerca de 30 mil jovens foram assassinados. No
Brasil, estima-se que foram cerca de 17 mil.
Com a queda do socialismo real, no pós 1989, as sociedades mergulharam
na crise das grandes utopias. Inaugurou-se uma época de fortalecimento do
capitalismo neoliberal, melhor dizendo, neocolonial. Veio a onda neoliberal e,
como um tsunami, levou de roldão centenas de empresas públicas/estatais. No
Brasil, só nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB + DEM), mais de 170
empresas estatais foram privatizadas “a preço de banana”. Um imenso patrimônio
do povo foi seqüestrado nas mãos de poucas empresas transnacionais. A Vale do
Rio Doce, que valia mais de 100 bilhões de reais, foi entregue apenas por 3,2
bilhões de reais. Há mais de cem ações judiciais questionando a privatização da
Vale, mas estão todas engavetadas no Poder Judiciário, poder que, infelizmente,
defende mais a propriedade do que a dignidade humana. Companhias de água,
energia, telefonia, siderurgia e etc passaram a ser regidas exclusivamente pelo
mercado onde a ganância por lucro máximo não tem fim. Além de priorizar o
lucro, essas empresas são responsáveis por danos sociais e ambientais em vista
dos empreendimentos de alto impacto que patrocinam irresponsavelmente.
Com o eclipse da Utopia da Grande Revolução, uma grande frustração se
abateu sobre a esquerda mundial com a derrocada do socialismo real. Muitos
diziam que se tornou impossível superar o capitalismo. Um arauto do
neoliberalismo, Fukuyama, chegou a
anunciar o “fim da história” ao sugerir que agora não seria mais possível
implantar nenhum projeto alternativo ao capitalismo. Se fosse assim, restaria
apenas a resignação diante do atual sistema é, na prática, uma máquina de moer
vidas. Os capitalistas cantaram vitória. Mas a história não acabou. O monstro
que é o capitalismo ruge como um leão, mas tem os pés de barro.
Nesse contexto, o foco passa a ser a construção de micro-revoluções.
Trata-se de construirmos um Outro Mundo Possível e necessário, mas debaixo para
cima e de dentro para fora, a partir dos pobres, tecendo uma rede de movimentos
sociais populares em todos os cantos e recantos, em todas as vilas, favelas,
bairros, no asfalto e nos morros, no campo e na cidade. Esse movimento está em
curso, liderado em grande parte pelo Movimento de Juventude presentes nos
vários Movimentos Populares: MST, MAB , Via Campesina, Movimento Indígena,
Movimento Negro, Movimento LGBT, Movimento dos Sem Teto, Movimento de Mulheres
etc. A juventude presente nas Pastorais Sociais também participa
ativamente da construção de micro-revoluções.
3.2
- Rápida retrospectiva religiosa
Para entender a/s missão/ões do/s jovem/ns, hoje, temos também que fazer
uma rápida retrospectiva religiosa. De 1962 a 1965 aconteceu o Concílio Vaticano II,
que abriu a Igreja Católica para os bons ventos do mundo. Muitos dizem que João
XXIII, o papa que convocou e abriu o Concílio, na abertura do Concílio teria
aberto as janelas do Vaticano e dito: “Que os bons ventos do mundo inundem a
Igreja e oxigene-a internamente.” No Vaticano II a Igreja se reconheceu como Povo de
Deus, abriu-se para o ecumenismo e para a inculturação. Os leigos foram
valorizados e diálogos com o mundo moderno iniciaram-se. Vários movimentos
eclesiais tornaram possível a realização do Concílio e foram fortalecidos pelos
Documentos do Vaticano II: Movimento litúrgico, movimento bíblico, movimento
leigo, Movimento ecumênico, entre outros.
Quatro conferências dos bispos da América Afrolatíndia contribuíram
muito para que os bons ventos do Vaticano II fossem assimilados entre nós. Na Conferência episcopal de Medelin,
na Colômbia, em 1968, a Opção pelos Pobres e pelos Jovens foi consagrada. Em
Puebla, no México, em 1979, a Opção pelos Pobres e pelos Jovens foi confirmada.
Em Santo Domingos, na República Dominicana, em 1992 - quando clamávamos por
Outros 500 anos sem opressão, sem colonização, sem imposição cultural e
religiosa – a inculturação e o protagonismo das/os leigas/os foi referendado.
Em Aparecida,
no Brasil, em 2007, na 5ª Conferência episcopal latino-americana, os pontos
fortes deMedelin, Puebla e Santo Domingos foram
resgatados e o reconhecimento das Comunidades Eclesiais de Base foi atestado mais uma
vez.
Movida e inspirada pela Teologia Política da Europa, a Ação Católica chegou
ao Brasil no clima espiritual e profético do Vaticano II. A Ação Católica
contava com cinco organizações destinadas aos jovens: JAC, JEC, JIC, JOC, JUC .
A JUC ajudou muito na criação da Ação Popular que lutava por Reformas de Base
como a reforma agrária.
A Ação Católica contribuiu muito na construção do que é hoje a Pastoral da Juventude.
Ajudou muito no nascimento e crescimento das CEBs. O papa Paulo VI continuou
o Vaticano II e como pontífice colocou em prática as inspirações e os
documentos conciliares. Paulo VI disse: “A melhor forma de amar o próximo é
fazer política, pois esta ataca os problemas pela raiz.” Assim, Paulo VI ajudou
muito as comunidades cristãs a experimentar a íntima relação que há entre fé e
política, entre Evangelho e questões sócio-ambientais.
4. E os jovens na Bíblia?
Para se compreender a Missão dos jovens, hoje, é preciso também
contemplar a atuação de muitos jovens que pelo que fizeram e ensinaram se
imortalizaram na Bíblia. Cito apenas onze.
1. No
livro de Gênesis (Gn 37-50), o jovem José, vendido pelos irmãos, dá a volta por
cima e se transforma em um libertador do seu povo e dos seus irmãos.
2. Samuel
foi um jovem que soube ouvir a voz de Deus e entrou para a história como um dos
iniciadores da profecia (Cf. Samuel 1 a 16).
3. O
jovem Davi reuniu os desvalidos da sociedade e liderou uma grande resistência
popular que o tornou rei de seu povo. Davi, inclusive, desafiou o “invencível”
Golias e dominou. Entrou para a história como um dos três reis bons: Davi,
Ezequias e Josias.
4. Amós,
um jovem camponês vaqueiro, pequeno agricultor, se tornou o profeta da justiça
social. Fervia o sangue de indignação contra a opressão dos latifundiários.
Clamava por preços justos para os produtos do campo e por Reforma Agrária.
5. O
profeta Jeremias, com apenas 18 anos, se tornou um grande profeta.
6. Bela
órfã judia, a jovem Ester, por sua atuação, foi decisiva para livrar seu povo
do aniquilamento.
7. O
jovem Daniel, exilado na Babilônia com seu povo, tornou-se um dos maiores
profetas de todos os tempos.
8. A
jovem Maria de Nazaré, por amor, abraçou o projeto de Deus. Arriscou ser
apedrejada. Tornou-se solidária e libertadora de seu povo. Acompanhou Jesus de
ponta a ponta e depois da paixão e ressurreição de Jesus, eis Maria no meio das
primeiras pessoas que fizeram a experiência da ressurreição de Jesus.
9. José,
o pai de Jesus, colocado pela tradição como um idoso, deve ter sido enquanto
jovem que, por amor, abraçou a “Menina de Nazaré” e, como homem justo, ao lado
de Maria, foi decisivo para que Jesus crescesse em estatura, sabedoria e graça.
10. João
Batista, ainda jovem, liderou um grande movimento popular-religioso que lutava
contra as desigualdades sociais e econômicas. Foi preso e decapitado pelo
governador Herodes Antipas, porque estava liderando uma insurreição popular,
ameaçava o status quo.
11. Jesus
de Nazaré fez história em plena juventude. Foi condenado à pena de morte aos 33
anos, diz a tradição. A entrada de Jesus em Jerusalém (Lc 19,28-40), o que se
recorda no Domingo de Ramos, foi organizada e realizada pelos camponeses da
Galileia. No meio deles, muitos jovens.
O de número doze é cada um/a um/a de nós que somos carinhosamente convidados
por esses e essas jovens da Bíblia a assumir nossa missão e fazermos a
diferença, combatendo o bom combate.
5. Missão e tarefas dos jovens, hoje
Considerando as muitas dimensões da pessoa humana, pensamos que a Missão
dos Jovens, hoje, deve envolver várias dimensões humanas e levando em conta o
abordado anteriormente, entre muitas missões/tarefas que estão clamando para
serem abraçadas pelos jovens, hoje, destacamos:
5.1 – Fazer Teologia da Juventude
Teologia não é uma reflexão sobre Deus, mas uma reflexão sobre qualquer
assunto a partir da fé no Deus solidário e libertador. Teologia não pode andar
no cabresto do papa e nem dos bispos. Não pode ser apologética, isto é,
justificadora da Instituição Igreja. A partir do ser jovem, da realidade que é
e envolve a juventude precisamos pensar: o que o Deus da vida pede de nós
diante de tantos desafios que estão no colo da juventude?
Jovens, vocês são templos de Deus, templos do Espírito Santo. No altar
dos deuses do mercado, do capital, da droga, do sexismo e do consumismo estão
sendo sacrificados milhares de jovens anualmente no Brasil. O Deus da vida
chora por causa disso. Todo tanto que fizermos para interrompermos essa matança
é pouco. É hora de desmascarar a Idolatria do mercado e do capital.
5.2 – Promover libertação integral
Intuo que uma das tarefas missionários dos jovens é lutar pela
libertação integral das pessoas e de tudo e não apenas por libertação
espiritual. No programa de Jesus, em Lc 4,16-21, consta uma libertação política
(“libertar os presos”), social e econômica (“anunciar uma boa notícia aos
pobres”), libertação ideológica (“restituir a visão”, e espiritual (“proclamar
o Ano de Graça do Senhor”). Assim, Jesus resgata o Jubileu Bíblico (Cf. Lev
25,8-12). No ano do Jubileu, toca-se o “berrante” (em hebraico “sofar”), que
acontece no primeiro ano após sete vezes sete anos. Neste Jubileu, todas as
dívidas devem ser perdoadas; todas as terras devem voltar ao primeiro dono (aos
ancestrais); todos os escravos devem ser libertados. Enfim, é tempo de se fazer
uma re-organização geral na sociedade; tempo para recriar a Vida e as relações
humanas com fraternidade, solidariedade libertadora, reconciliação e novos
sonhos.
5.3
– Acreditar na ortopráxis, sim; ortodoxia, não!
Outra missão dos jovens é defender uma ortopráxis (= testemunho
libertador), não uma ortodoxia (= opinião certa). O que de fato faz diferença
não é tanto o que a gente pensa ou em que acreditamos, mas o que fazemos (ou
deixamos de fazer). É hora de compromisso com um outro projeto de sociedade,
que seja justo, ecumênico e sustentável ecologicamente.
5.4 - Rever conceitos.
Verdade não é adequação de um conceito a um objeto. Isso é verdade
formal. “Verdade é o que liberta todos e tudo”, diz o quarto evangelho da
Bíblia. A verdade deve ser buscada conjuntamente. Ninguém é dono da verdade,
mas verdade como o que liberta deve ser buscada a partir dos pobres (últimos,
pequenos, discriminados): pobre, excluído, sem terra, indígenas, negros, pessoas
com deficiências, idosos, desempregados, homossexuais, mãe terra, irmã água,
favelados, vítimas da violência etc.
5.5 - Sentir-se igreja, membro vivo de uma comunidade de fé libertadora.
“Igreja é Povo de Deus”, nos ensina o Vaticano II. È hora de percebermos
que o sacerdócio comum está acima do sacerdócio ordenado. Os jovens não podem
aceitar uma relação que os coloquem como infantis e em uma postura de quem só
deve obedecer. Nada disso. Os jovens têm o direito e o dever de dialogar,
discutir e reivindicar o direito de decidir conjuntamente todos os assuntos que
envolvem a vida da comunidade cristã e da sociedade.
É hora de perceber que a coisa sagrada é também profana. Profanar é
retirar do uso exclusivo para dar acesso a todos. Pro-fanar vem do verbo grego
faneo, que quer dizer “brilhar”. Ou seja, que o brilho do sagrado seja
estendido a todos sem distinção e sem nenhuma discriminação. É hora de gritar
“Não a todo e qualquer dualismo!” Não há separação entre espiritual e material,
entre sagrado em profano, entre divino e humano, entre santo e pecador, entre
puro e impuro etc. Tudo está intimamente relacionado.
Jesus não morreu na cruz porque Deus quis, mas foi condenado à pena de
morte pelos podres poderes político-econômico e religioso.
Jesus doou sua vida por todos e tudo. Jesus nos salva porque nos amou
demais e não porque sofreu demais.
Jesus não nasceu Cristo, mas tornou-se Cristo, pois conseguiu
desenvolver o infinito potencial de humanidade que cada pessoa traz consigo ao
chegar a este mundo. “Jesus foi tão humano, tão humano, que só podia ser Deus”,
disse o papa Paulo VI.
Milagre não é algo fruto de um poder extraordinário que está acima do
humano.
Milagre é uma maravilha de Deus, conforme diz o Primeiro Testamento da
Bíblia.
Milagre é um gesto solidário e libertador de Deus agindo nas entranhas
da história.
Deus não é juiz, pois Deus é amor. Ou melhor, o amor é Deus.
Deus não é transcendente, mas transdescendente. Na Bíblia, de ponta a
ponta, vemos a imagem de um Deus apaixonado pelo humano.
Deus não é neutro diante dos conflitos. Deus faz opção preferencial
pelos pobres (cf. Ex 3,7-10).
Não existe inferno, nem purgatório e nem limbo como locais destinados
aos pecadores, como descrito de forma tradicionalista por muitos nas igrejas.
Satanás (satã, em hebraico) ou diabo (diabolos, em grego) não são entes
abstratos, um deus negativo que faz oposição ao Deus da vida. Satanás (diabo) é
tudo o que divide, separa, desune, oprime, exclui, discrimina e depreda. Pode
ser uma dimensão interior nossa, mas em uma sociedade capitalista neoliberal
como a nossa, trata-se prioritariamente de estruturas e instituições que
oprimem, excluem e depreda a natureza. Podemos dizer que o agronegócio é
satânico, pois concentra riqueza em poucas mãos, expulsa os pequenos do campo e
devasta a biodiversidade. Uma democracia burguesa formal que não respeita a
Constituição Brasileira e pisa na dignidade das pessoas é uma falsa democracia,
algo também satânico.
Ser cristão implica ser anticapitalista. Não dá para compactuar com os
pretensos valores do capitalismo: concorrência, competição, acumulação, lucrar
e lucrar. Ser cristão é ser outro Cristo, alguém que consola os aflitos, mas
que também incomoda os acomodados. Tarefa da pessoa cristã é buscar vida e
liberdade para todos e tudo – e não apenas para alguns - mas a partir dos
últimos.
5.6
– Comprometer-se com a Opção pelos pobres e pelos jovens
O apóstolo Paulo, ao escrever sobre o Concílio de Jerusalém, acontecido
por volta dos anos 49/50 do 1º século diz que a circuncisão, a maior de todas
as barreiras, tinha sido abolida e que a única coisa que os apóstolos fizeram
questão de alertar foi: “Não esqueçam os pobres.” (Gal 2,10) Esse alerta deve
ser acolhido pelos jovens também. Mas faz bem ter um bom entendimento sobre
quem é pobre. Primeiro, o carente economicamente. Depois, a mulher, o indígena,
o negro, o homossexual, a divorciada, a mãe terra, a irmã água, o meio
ambiente.
A Teologia da Libertação não
vê o pobre apenas como um poço de carência, como um coitado, mas,
principalmente, como um portador de força ética e espiritual. Deus age a partir
dos pequenos. A Teologia da Libertação acredita que “o mundo será melhor quando
o menor que padece acreditar no menor”, conforme dizia Dom Hélder Câmara, o
santo rebelde.
6. Enfim...
Contamos com os jovens, como protagonistas de sua história, para
vivenciar a Opção preferencial pelos Pobres e pelos Jovens, buscar alternativas
para a superação da atual crise sócio-política-econômica-cultural e religiosa.
Apoiar firmemente a Economia Popular Solidária, as lutas pela Reforma Agrária,
por agricultura familiar, por preservação ambiental, pela mudança do atual
modelo econômico neoliberal. Queremos um modelo econômico que seja popular,
democrático, soberano, inclusivo e sustentável ecologicamente. Queremos
construir um outro modelo de igreja, onde, de fato, igreja seja povo de Deus,
em comunidades que se relacionam em sistema de rede.
Apêndice
Sugestão: textos e eventos bíblicos libertadores que podem inspirar a Missão
dos jovens:
1) Gn 1: Toda a Criação é muito boa, imagem e
semelhança de Deus.
2) Ex 1,15-22: O Movimento das parteiras faz
Desobediência civil e religiosa. Cf. Gandhi, Martin Luther King, as camponesas
da Via Campesina.
3) Ex 3,7-10: Deus opta pelos pobres.
4) Davi vence Golias.
5) Is 65,17-25: Eis um novo céu e uma nova Terra.
6) Dn 2,31-37: Uma pedrinha destrói um gigante de pés
de barro – a força da profecia.
7) Jo 6,1-15: Solução radical para a fome de pão –
partilha de pães.
8) Mt 21,12-13: Jesus expulsa os capitalistas do
Templo.
9) Jovens camponeses, João Batista e Jesus se tornam
líderes de libertação.
10) Ap 12,1-17: Uma mulher grávida, em dores de parto,
vence um Dragão.
11)
At 21,1-7: Deus deixa o céu e arma sua tenda no meio dos pobres.terça-feira, 17 de julho de 2012
Rio + 20 e Cúpula dos Povos: Um balanço
Em junho de 2012 ocorreram dois encontros mundiais na cidade do Rio de
Janeiro: a Rio + 20 e a Cúpula dos Povos. As duas reuniões representam a
situação atual nas questões políticas, econômicas e ambientais. Foram duas
manifestações de um embate que está longe de seu fim.
A Rio + 20 foi o evento oficial da ONU
para avaliar os resultados de 20 anos de políticas em prol do desenvolvimento
sustentável propostas na Conferência do Rio de 1992. A Cúpula dos Povos foi um
evento de organizações da sociedade civil preocupadas com a questão ambiental,
o combate à miséria, a degradação cultural e a luta por justiça no mundo. O
formato repetiu o que ocorreu em 92, quando a ONU organizou a Conferência do
Meio Ambiente (a Eco 92) e a sociedade civil realizou o Fórum Global.
Em 92, houve a entronização oficial da
questão ambiental na agenda oficial do planeta. Pressionados por um movimento
social intenso, foram acertados vários acordos sobre temas cruciais como
biodiversidade, mudanças climáticas, combate à miséria e a luta contra a
poluição e a formação de uma mentalidade ecológica na população.
Passados vinte anos, todo aquele
esforço não se manifestou em ações tão fortes como as desejadas em 92. É
verdade que houve um avanço grande na consciência ambiental da população como
um todo. Mas muitos agentes econômicos fortes agiram para postergar a efetivação
de medidas que contrariavam seus interesses imediatos.
A ONU não conseguiu se impor porque
muitos dos governos mais poderosos do planeta não aderiram aos acordos
propostos em 92 por conta de interesses internos. Talvez isso explique a
frustração de muita gente com os resultados da Rio + 20. A meta de implantar
medidas para alcançar o desenvolvimento sustentável foi adiada para 2014 e a
forma de financiá-las ficou para 2015. O Programa das Nações Unidas para Meio
Ambiente segue como Programa e não se converteu em Agência de Meio Ambiente
como muitos queriam, para ele ter mais força.
A crise econômica da primeira década do
milênio fez com que mais uma vez a prioridade para as questões ambientais e
sociais fosse adiada. As grandes corporações econômicas procuraram se
apresentar como agentes de construção de sustentabilidade. Mas a maioria apenas
faz disso uma fachada verde para ocultar seu verdadeiro objetivo de aferir
grandes lucros com a continuidade do modelo concentrador de renda e consumidor
da natureza que praticam.
A sociedade civil vai ter que continuar
lutando para mudar essas coisas. Na Cúpula dos Povos se pôde ver que essa
percepção cresce cada vez mais na formatação de uma agenda comum em prol do
futuro do planeta. A Cúpula foi um evento aberto à livre participação, feito em
praça pública, com poucos recursos, que foi às ruas mostrar força. Diferente da
Rio + 20, que se desenrolou a portas fechadas, num lugar distante e protegida
por forte esquema de segurança, como poucas vezes se viu no Brasil.
Essas duas reuniões representam bem o
atual estado das coisas. Por um lado, uma elite política aliada com a elite
econômica transnacional tenta continuar a controlar os destinos do mundo ao seu
favor, apenas com um verniz verde para disfarçar. Por outro lado, forças
populares embasadas num processo econômico solidário, buscando construir um
mundo que atenda as necessidades humanas de forma justa e equilibrada,
respeitando e resgatando o equilíbrio do planeta.
Um embate que ainda vai continuar por
um bom tempo.
Enquanto isso, o presidente esquerdista
do Paraguai foi derrubado num processo relâmpago muito estranho, e o governo
brasileiro baixou para zero um imposto sobre combustíveis para manter a
gasolina relativamente barata e atrasar ainda mais o domínio do álcool nos
automóveis.
Sinais de
que a velha ordem política e econômica segue agindo com seus velhos métodos
para seguir mandando no planeta, ainda que com o sacrifício de todas as demais
formas de vida.
Arno Kayser agrônomo, ecologista e escritor.
Marcadores:
ARTIGO,
Cúpula dos Povos,
Rio+20
domingo, 24 de junho de 2012
“HOUVE UM HOMEM ENVIADO POR DEUS, CHAMADO JOÃO” (Jo.1,6)
A
Igreja celebra no tempo o Mistério Pascal de Cristo como núcleo de sua fé e
centro da intervenção de Deus no meio da humanidade. Entretanto, celebra
durante o seu Ano Litúrgico a memória de santos e santas que testemunharam em
suas própria carne a paixão, morte e ressurreição do Senhor sendo sua santidade
existente em função desta co-participação no Mistério de Jesus. Cristo é o protótipo
de toda santidade; os santos e santas tanto mais o serão à medida que se
identificam com Ele.
Ao
celebrarmos a festa do Nascimento de João Batista fazemos memória da Páscoa de
Jesus no testemunho fiel “daquele que não era a luz, mas uma testemunha da luz”
(cf.Jo.1,7-8) e, que em nome de um projeto gerador de vida para todos/as, assim
como o próprio Cristo, foi capaz de ir até as últimas consequências. A vocação
de João nasce do “possível” de Deus para o “impossível” da humanidade; ao
conceberem em idade avançada, Isabel e Zacarias são fiéis colaboradores no
plano de salvação que Deus preparou para todas as pessoas desde a antiga
aliança. Zacarias é a imagem de todos aqueles que, não aceitando o milagre de
Deus em sua história, se calam diante da realização da promessa que o Senhor
realiza. Quando há discordância entre a vontade de Deus e a nossa própria
vontade nos tornamos incapazes e impotentes de colaborar com o Reino. Porém,
nele também encontramos todos aqueles e aquelas que diante da experiência do
Deus verdadeiro, são capazes de desprender sua língua testemunhar que a
presença de Deus visita e liberta o seu povo (cf.Lc.1,68). O primeiro encontro
entre o Messias esperado e o seu precursor se dá ainda no ventre materno, um
sinal profético que celebra o advento da nova criação anunciada por Deus na
encarnação do Verbo. E numa sociedade onde o papel da mulher estava
condicionado à exclusão da sinagoga e dos outros diversos espaços sociais, esta
“liturgia do encontro” acontece em casa, num lugar feminino e acolhedor, ou
seja, no projeto de Deus a casa é o lugar da manifestação da alegria, do
encontro fraterno. A casa de Isabel já é uma prefiguração de Betânia (cf.Jo.12,1-3),
Zaqueu (cf.Lc.19,5), Emaús (Lc.24,13-35), e tantos outras que serviram como o
“lugar” da epifania do projeto de Jesus que é de vida para todos/as
(cf.Jo.10,10). O encontro de Jesus com João ainda no ventre de suas mães é
força para os cristãos de todos os tempos que devem lutar pela dignidade humana
desde a concepção. Quantas mulheres que ainda hoje engravidam do “impossível” e
muitas vezes são condenadas por uma sociedade movida pelo preconceito que tem
um conceito imutável de família! Quantas adolescentes obrigadas a sustentarem
sua gravidez sem um mínimo de condições tanto para elas quanto para seus
filhos! Vivemos numa sociedade que em sua grande maioria põe sobre a mulher a
responsabilidade inteira pela geração de um filho. Oxalá compreendamos a
vocação à vida como um chamado e uma consagração que começa no ventre materno!
(cf.Jr.1,5)
Desde
a concepção de João e até o momento de seu nascimento os sinais anunciavam
àquilo que Lucas já testemunhava “se tratava de alguém enviado por Deus”
(cf.Lc.1,66). A missão clássica de João deu a ele próprio um sobrenome: o
Batista, alguém que mergulhava o povo nas águas do Jordão a fim de que
purificados pudessem aguardar a vinda de um novo Reino que estava próximo.
Todavia, anunciar ao povo a conversão não era nada simples, pois a conversão do
coração e do espírito devia gerar também uma conversão social, e neste aspecto,
aquele profeta aparentemente tão insignificante, que se vestia com pele de
animais e se alimentava de insetos, (cf.Mc.1,6) agora passava a incomodar os
grandes opressores de sua gente. João Batista passa a ser então não apenas o
precursor de um Messias, mas de todo um povo messiânico, prelúdio de uma nova
aliança. Não obstante sua biografia abre as páginas dos evangelhos, que por sua
vez abrem as páginas do Novo Testamento.
Embora
um tanto quanto lógico, porém não simplório, o martírio de João Batista é a
coroa de sua missão. O anúncio da conversão em vista do Reino que estava
próximo transforma-se em denúncia opondo-se aos contra-valores que impedem o
Reino de chegar. O discurso profético de João Batista mexeu na posição daqueles
que oprimiam o povo fazendo com que sua cabeça seja o prêmio de uma sociedade que
explora e escraviza os pobres. Entretanto, o encontro do precursor com o
Messias nas águas do Jordão é o sinal, autenticado pelo próprio Espírito, que o
Reino já está entre nós, e assim morrer pela sua causa não é perder a vida, mas
ganhá-la para sempre. (cf.Mc.8,35)
A
festa litúrgica da Natividade de João Batista é, portanto, um convite à toda Igreja
fazer memória de todos aqueles e aquelas que como João, testemunha fiel de
Jesus Cristo, ainda hoje são capazes de dar sua cabeça a prêmio pela causa do
Evangelho. É a festa daquele que viveu em sua própria carne a Páscoa do Cristo
e de toda a Igreja que vê no Mistério Pascal a fonte e a base sólida da sua fé.
É uma nascente donde emana força e coragem a fim de lutar sem temor desafiando
os contra-valores que ainda hoje impedem o Reino de acontecer entre nós.
Tão
bem-vindas e tão arraigadas na genuína cultura popular, as festas juninas que tanto
envolvem toda a sociedade em torno das tradições, e que tem no centro a devoção
a este santo, sejam um momento privilegiado de conhecer a sua biografia e de
celebrar sua memória sem estarmos tão presos a cultura capitalista que por
vezes sufoca o verdadeiro sentido da festa. Em cada “Viva São João!” possa o
mundo ouvir: “Viva a força libertadora que nasce da Páscoa de Jesus! Viva o
Deus da Vida que visitou e libertou o seu povo!”.
Arnaldo Antonio de Souza Temochko, historiador, liturgista, militante da PJ na Paróquia Imaculada Conceição em Cantagalo, diocese de Guarapuava/PR.
sábado, 16 de junho de 2012
Artigo - Viver a poesia do coletivo
Rodrigo Szymanski
Analisando a palavra “coletivo”, o dicionário Aurélio traz a seguinte definição: adj.1. Que forma coletividade ou provém dela. 2. Que pertence a muitos. adj. s. m.1. Diz-se de ou substantivo que, mesmo no singular, representa pluralidade. “Mesmo no singular, representa pluralidade”. Podemos olhar para esta definição como apenas gramática da língua portuguesa. Ou não. Talvez, inconscientemente, a poesia se difunde nas entrelinhas da teoria. Mas isso depende dos olhos de quem vê.
Leonardo Boff nos ensina que “todo ponto de vista é à vista de um ponto. Para entender como alguém lê é necessário saber como são seus olhos e qual a sua visão de mundo”. Para uma sociedade baseada nos valores individuais, onde reina o “cada um por si”, a poesia não faz sentido. Muito menos a poesia do coletivo. Pastoral da Juventude tem tudo a ver com coletivo e muito mais tem a ver com poesia. Vamos interpretar o “coletivo” com os olhos de quem pisa em chão Pjoteiro, pois o contexto da vida dos que assumem a “história de grupo” é o contexto da coletividade ou o “que pertence a muitos”. É impossível pensar a caminhada de Pastoral da Juventude com configurações individualistas.
Atualmente somos seduzidos a raciocinar o “eu”. Cuidado! Refletir e pensar o “eu” é necessário para vida, mas não se pode ser egocêntrico. A sociedade encanta os indivíduos a se tornarem ilhas, pensando que são auto-suficientes. Afirma o místico Thomas Merton que “homem algum é uma ilha”. Se não somos ilhas, somos “continentes”, a conexão entre diversos países, pessoas, culturas... Somos parte. Cada “eu” tecendo laços com o “outro” formando comunidade. “Qualidade daquilo que é comum”. O coletivo, no sentido poético e pejoteiro, é ser qualidade na vida em comum com os outros, formar comunidade e ser grupo. Com isso, germinamos novas formas de resistir ao sistema e “remamos contra a maré”. Novas formas? Talvez nem tão novas.
Falar da construção coletiva desta vivência comunitária é remeter a toda forma de organização social histórica. Até mesmo o diabólico mercado financeiro usa como estratégia a “junção” de capitais para sobreviver. Mas vamos pensar exemplos mais humanos e edificantes. No modelo de grupo de jovens ou comunidade de base que acreditamos, qual é o nosso arquétipo? É um só. Jesus Cristo, o Bom Pastor. Jesus, por ser Deus, poderia ser uma “ilha”. Não necessitava de nosso egoísmo – característica que lhe custou à vida.
Analisando rapidamente a vida de Jesus, encontramos a essência de nossa vivência coletiva. Ele vive em uma comunidade; por volta de seus Trinta anos forma um grupo para caminhar e partilhar a vida com Ele – onde a maioria era jovem. Os evangelhos mostram constantemente o diálogo de Jesus com os seus. Ele acolhe a todos; sem distinção. Hoje, nossa sociedade aceita acolhermos a todos? Quem são os excluídos que não aceitamos em nosso coletivo?
Viver em grupos, e talvez esta seja sua escolha - viver no coletivo PJoteiro, é ter a capacidade de conviver, de estar junto com outras pessoas. Acredito que é ai que reside o grande Mistério de ter a capacidade de partilhar a vida e romper o individualismo. Não que seja fácil conviver no coletivo, pois, se nos colocamos a disposição de estar junto com outras pessoas, precisamos entender que elas são diferentes da gente. É se abrir ao outro. É impossível formar um coletivo com pessoas que estão fechadas no seu “eu” e não possuem a capacidade de se abrir. É ai que entra a poesia do dicionário “Aurélio” quando define “coletivo”: “mesmo no singular representa pluralidade”. Mesmo que 'eu' continue sendo 'eu' nas minhas individualidades, quando me abro à experiência dos outros me torno plural com eles.
É um tanto quanto complicado compreender ou falar da vivência coletiva. Às vezes, é mais fácil vivenciar e, outras vezes, é mais fácil teorizar esta vivência, mas a poesia sempre pode auxiliar na reflexão. Poesias normalmente servem para isso, para teorizar a vivência que não pode ser teorizada.
“Eu não sou você
Você não é eu
Mas somos um grupo, enquanto
Somos capazes de, diferenciadamente,
Eu ser eu, vivendo com você e
Você ser você, vivendo comigo.”
(Pichon Riviere)
E que a experiência de viver o coletivo seja edificante. Vale a pena viver em comunidade e romper a crosta de egoísmo que a sociedade propaga. Todo seguidor do Reino aceita viver o Mistério do coletivo. Sejamos sempre continente. Nunca ilha!
Analisando a palavra “coletivo”, o dicionário Aurélio traz a seguinte definição: adj.1. Que forma coletividade ou provém dela. 2. Que pertence a muitos. adj. s. m.1. Diz-se de ou substantivo que, mesmo no singular, representa pluralidade. “Mesmo no singular, representa pluralidade”. Podemos olhar para esta definição como apenas gramática da língua portuguesa. Ou não. Talvez, inconscientemente, a poesia se difunde nas entrelinhas da teoria. Mas isso depende dos olhos de quem vê.
Leonardo Boff nos ensina que “todo ponto de vista é à vista de um ponto. Para entender como alguém lê é necessário saber como são seus olhos e qual a sua visão de mundo”. Para uma sociedade baseada nos valores individuais, onde reina o “cada um por si”, a poesia não faz sentido. Muito menos a poesia do coletivo. Pastoral da Juventude tem tudo a ver com coletivo e muito mais tem a ver com poesia. Vamos interpretar o “coletivo” com os olhos de quem pisa em chão Pjoteiro, pois o contexto da vida dos que assumem a “história de grupo” é o contexto da coletividade ou o “que pertence a muitos”. É impossível pensar a caminhada de Pastoral da Juventude com configurações individualistas.
Atualmente somos seduzidos a raciocinar o “eu”. Cuidado! Refletir e pensar o “eu” é necessário para vida, mas não se pode ser egocêntrico. A sociedade encanta os indivíduos a se tornarem ilhas, pensando que são auto-suficientes. Afirma o místico Thomas Merton que “homem algum é uma ilha”. Se não somos ilhas, somos “continentes”, a conexão entre diversos países, pessoas, culturas... Somos parte. Cada “eu” tecendo laços com o “outro” formando comunidade. “Qualidade daquilo que é comum”. O coletivo, no sentido poético e pejoteiro, é ser qualidade na vida em comum com os outros, formar comunidade e ser grupo. Com isso, germinamos novas formas de resistir ao sistema e “remamos contra a maré”. Novas formas? Talvez nem tão novas.
Falar da construção coletiva desta vivência comunitária é remeter a toda forma de organização social histórica. Até mesmo o diabólico mercado financeiro usa como estratégia a “junção” de capitais para sobreviver. Mas vamos pensar exemplos mais humanos e edificantes. No modelo de grupo de jovens ou comunidade de base que acreditamos, qual é o nosso arquétipo? É um só. Jesus Cristo, o Bom Pastor. Jesus, por ser Deus, poderia ser uma “ilha”. Não necessitava de nosso egoísmo – característica que lhe custou à vida.
Analisando rapidamente a vida de Jesus, encontramos a essência de nossa vivência coletiva. Ele vive em uma comunidade; por volta de seus Trinta anos forma um grupo para caminhar e partilhar a vida com Ele – onde a maioria era jovem. Os evangelhos mostram constantemente o diálogo de Jesus com os seus. Ele acolhe a todos; sem distinção. Hoje, nossa sociedade aceita acolhermos a todos? Quem são os excluídos que não aceitamos em nosso coletivo?
Viver em grupos, e talvez esta seja sua escolha - viver no coletivo PJoteiro, é ter a capacidade de conviver, de estar junto com outras pessoas. Acredito que é ai que reside o grande Mistério de ter a capacidade de partilhar a vida e romper o individualismo. Não que seja fácil conviver no coletivo, pois, se nos colocamos a disposição de estar junto com outras pessoas, precisamos entender que elas são diferentes da gente. É se abrir ao outro. É impossível formar um coletivo com pessoas que estão fechadas no seu “eu” e não possuem a capacidade de se abrir. É ai que entra a poesia do dicionário “Aurélio” quando define “coletivo”: “mesmo no singular representa pluralidade”. Mesmo que 'eu' continue sendo 'eu' nas minhas individualidades, quando me abro à experiência dos outros me torno plural com eles.
É um tanto quanto complicado compreender ou falar da vivência coletiva. Às vezes, é mais fácil vivenciar e, outras vezes, é mais fácil teorizar esta vivência, mas a poesia sempre pode auxiliar na reflexão. Poesias normalmente servem para isso, para teorizar a vivência que não pode ser teorizada.
“Eu não sou você
Você não é eu
Mas somos um grupo, enquanto
Somos capazes de, diferenciadamente,
Eu ser eu, vivendo com você e
Você ser você, vivendo comigo.”
(Pichon Riviere)
E que a experiência de viver o coletivo seja edificante. Vale a pena viver em comunidade e romper a crosta de egoísmo que a sociedade propaga. Todo seguidor do Reino aceita viver o Mistério do coletivo. Sejamos sempre continente. Nunca ilha!
Marcadores:
ARTIGO
quarta-feira, 6 de junho de 2012
A origem de Corpus Christi
Qual o sentido da adoração eucarística?A Igreja Católica sempre conservou como tesouro preciosíssimo o mistério da fé presente no dom da Eucaristia. Ao longo da história exprimiu a fé eucarística não só através de uma atitude interior de devoção, mas também mediante várias expressões exteriores. Disto surge a devoção eucarística, explicitada na adoração ao Santíssimo Sacramento (na vigília da Sexta-feira Santa e, sobretudo, na Solenidade de Corpus Christi).
Origem do Corpus Christi
A origem desta solenidade começa quando a Ir. Juliana de Mont Cornillon teve visões de Cristo demonstrando o desejo de que o mistério da Eucaristia fosse celebrado com maior destaque. Após apurada investigação das visões, estas foram acolhidas e oficializadas. Outro milagre eucarístico ocorreu durante uma missa, quando o Pe. Pietro de Praga duvidou da presença real de Cristo; imediatamente todos viram brotar sangue da hóstia consagrada por ele. Esta hóstia consagrada foi levada a Oviedo, na Espanha, em grande procissão, sendo recebida solenemente pelo Papa Urbano IV e levada para a Catedral de Santa Prisca. Esta foi a primeira procissão do Corpo Eucarístico. Dentro deste contexto, o Papa Urbano IV instituiu a Festa de Corpus Christi em 11 de agosto de 1264, para ser celebrada na quinta-feira após a Festa da Santíssima Trindade.
Marcadores:
ARTIGO,
Corpus Christi
Assinar:
Comentários (Atom)


